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Sob o signo da abundância partilhada  

Os Impérios na ilha de Santa Maria

Em Santa Maria, a mais setentrional das ilhas açorianas, o culto em honra do Divino Espírito Santo combina a devoção e o cerimonial religioso com a pulsão lúdica e profana. As distribuições alimentares promovem os valores da igualdade e da fraternidade e a festa é a antecipação utópica do reino da abundância.

A Coroação do Imperador 

A cena passa-se em Santa Bárbara, povoação rural anichada num extenso e verdejante vale da ilha de Santa Maria, arquipélago dos Açores. Na noite anterior a Irmandade reuniu-se em casa de José e Arminda Bairos para o seu último jantar antes da grande festa e agora, nesse sábado de Julho, tudo está pronto para a saída do cortejo das ofertas que vai dar início a mais um “Império” em honra do Divino Espírito Santo. O Nobre Imperador e a Nobre Imperatriz dirigem-se para a Sala do Trono onde durante sete semanas guardaram a Divina Coroa e, sob o olhar dos Irmãos, retiram-na do altar com solenidade. Há – no instante em que perdem a bênção do Espírito Santo sobre aquele tecto – um sentimento de emoção e de tristeza tão intenso que as lágrimas assomam aos olhos do casal. Durante meses afadigaram-se em obter meios para as despesas do Império, mas a partir daquele momento, embora continuando a ser os primeiros em honrarias, as suas atribuições são limitadas e o cerimonial passa a estar nas mãos da corte de Dignitários e ajudantes. 

A meio da manhã a procissão sai de casa, rumo à igreja paroquial. À frente, a marcar o ritmo, vêm os três Foliões, com os seus lenços distintivos atados ao pescoço. A seguir quatro meninas, com as insígnias do Espírito Santo – a Pomba e o Ceptro. Logo trás os principais Dignitários com as suas varas envernizadas, seguidos dos futuros Imperadores, com ar abatido e saudoso. Por fim, duas filas de mulheres, transportando à cabeça tabuleiros com as suas ofertas – roscas, pães da mesa e pães-de-ló enfeitados com flores. Instalada a multidão na igreja para assistir ao ofício religioso, o padre recebe solenemente a Coroa e o Ceptro e a emoção contagia toda a gente: está a chegar o momento da Coroação, que investe o Imperador de um poder tão simbólico quanto efémero. À saída da missa a alegria irrompe e, enquanto os sinos tocam e os foguetes estrondeiam no ar, os Foliões entoam os seus cânticos arrastados. Autênticos mestres-de-cerimónias das festas, são eles a verdadeira alma de um Império, dirigindo cada momento ritual com a sua música e os seus versos improvisados. Um transporta a divina bandeira; o segundo, dois testos de bronze; o terceiro percute, num tambor, um tum-tum-tum monótono que, de tantas vezes repetido, acaba por ritmar uma melopeia de cadência dolente. 

Os Foliões marienses são um caso único de originalidade e sobrevivência no contexto do culto açoriano ao Divino Espírito Santo. As folias têm origem medieval, mas o seu papel nas festas foi gradualmente substituído pelas filarmónicas. Apenas em Santa Maria eles se conseguem ainda afirmar plenamente como actores indispensáveis no culto. Respeitados e ouvidos por toda a gente, têm o estatuto de “conhecedores”, tomando parte activa em todo o cerimonial, que dirigem por meio das suas cantigas, quase sempre improvisadas pelo “cabeça de folia” e repetidas em coro pelos seus companheiros.

Origens do culto

O culto do Espírito Santo, terceira pessoa da Santíssima Trindade, remonta ao início do cristianismo. É com a anunciada descida do Espírito Santo sobre os Apóstolos e a Virgem Maria, reunidos no Monte Sião, que a Páscoa Cristã estabelecida pela ressurreição de Jesus atinge, ao quinquagésimo dia, o seu momento de consumação plena. O acontecimento, de tal modo importante que muitos o consideram a verdadeira data do nascimento da Igreja Cristã, celebra-se há mais de dois mil anos, por altura do Pentecostes.

Entre os católicos, o ponto comum aos diferentes cultos do Espírito Santo consiste na exaltação da tolerância e da solidariedade entre os Homens. As festas promovem a caridade e a fraternidade através de formas de entreajuda no interior de Irmandades, e há uma definição clara dessa sacralidade cíclica no principal símbolo de culto: a Pomba, animal associado à pureza, beleza e simplicidade.

Parece haver uma ligação causal entre os princípios religiosos defendidos pelo Franciscanos e a introdução do culto do Espírito Santo em Portugal, pela rainha D. Isabel. É provável que a rainha tenha querido favorecer esta ordem com a edificação em 1296 da igreja do Espírito Santo de Alenquer, onde logo se estabeleceu a

primeira Irmandade e se passaram a celebrar as festas nos moldes que depois se tornaram tradicionais. Constou, esse primeiro acto devocional, em procurar na capela real, em dia de Pentecostes, o indivíduo mais pobre ali presente para o conduzir ao trono, onde o rei lhe serviu de condestável e de pajens os cavaleiros da corte. Ajoelhado o velho andrajoso no coxim de veludo, o bispo tomou a coroa e colocou-a na cabeça dele. Depois da missa, organizou-se uma procissão até ao paço, onde houve lauto banquete, servido à mesa pela própria rainha. Reza a tradição que tão expressivo acto de humildade produziu tamanha impressão entre os nobres que estes terão pedido para o repetir nos seus solares. Depois disso, o culto do Espírito Santo expandiu-se por Portugal com uma rapidez impressionante. No fim do século XVI, havia cerca de um milhar de igrejas, conventos e ermidas com irmandades, que realizavam procissões, festas e romarias alusivas ao Império e à Coroação do Imperador. O salto seguinte foi natural: o culto passou do Continente à Madeira e Açores com os primeiros povoadores e daqui irradiou para o Brasil, África Portuguesa e, mais tarde, para os Estados Unidos e Canadá. Hoje em dia, é no arquipélago açoriano que as festividades em honra do Divino Espírito Santo atingem a sua máxima expressão social e cultural e maior densidade simbólica. O culto varia de ilha para ilha, mas a Pomba e a Coroa são sempre os símbolos maiores de um ritual que é vivido com um sentido de devoção profundo. Para os açorianos os Impérios são uma forma de consagração colectiva, dívida sagrada que, a pretexto de promessas individuais, todos os anos urge cumprir nos dias aprazados.

O culto ao Espírito Santo na ilha de Santa Maria é, muito provavelmente, aquele que nos Açores mais próximo se mantém das suas origens medievais. O pretexto para a realização de um Império – pagamento de uma promessa – é idêntico em todo o arquipélago, tal como é comum que o Imperador conte com a ajuda de uma Irmandade para a sua organização. Porém, as Irmandades marienses são bem mais informais do que nas outras ilhas: existem para ajudar o Imperador e dissolvem-se no fim das festividades. Cada Império está ligado a uma ermida ou igreja, tomando o nome do seu orago. Embora actualmente se realizem apenas meia dúzia de Impérios por ano, o seu número chegou, no início do século XX, a ser superior a trinta. Os mais importantes realizavam-se oito semanas após a Páscoa, no Domingo de Pentecostes e na segunda feira do Espírito Santo. No domingo seguinte efectuavam-se ainda os Impérios da Trindade. Com a influência dos emigrantes, as datas foram alteradas para se adequar às suas necessidades e os tempos dos Impérios passaram a ser bastante menos rígidos, realizando-se em qualquer domingo após o Pentecostes – o que, na prática, significa que as festividades do Espírito Santo se estendem agora ao longo de todo o Verão.

Entre a Copeira e o Teatro: a festa popular

Voltemos ao cenário bucólico de Santa Bárbara, agitado este fim-de-semana pelo frenesim da festa, e a José e Arminda Bairos, agora investidos nos papéis de Nobre Imperador e Nobre Imperatriz. Depois da missa de Coroação está na hora de eles assumirem o seu estatuto simbólico, confiando no pessoal da Copeira para a realização das tarefas práticas. As Copeiras do Espírito Santo são uma instituição comunitária tipicamente mariense. Trata-se de casas baixas e compridas com três divisões – uma cozinha, a sala onde se serve o banquete em mesas corridas e um pequeno compartimento utilizado como dispensa e local de repouso para os Imperadores. O Copeiro-Mor e a Senhora Mestra reinam neste espaço impregnado de odores e emoções, dividindo a tarefa de superintender todos os pormenores relativos ao repasto. Durante a noite de sábado ninguém prega olho, homens e mulheres atarefados a cortar carnes, armazenar pão e lenha, ou concentrados em redor de uma dezena de panelões de ferro, cheios de carne a cozer. Ao romper da madrugada de domingo, anunciado pelo estouro dos foguetes, tudo tem que estar pronto para se começarem a colocar nas terrinas as saborosas sopas, rescendendo a hortelã e a endro. 

Na verdade, os preparativos para este Império começaram bem antes, porque ser Imperador do Espírito Santo constitui uma empresa de vulto, com grandes custos e canseiras. Noutros tempos o ofertante não se poupava a despesas, contribuindo com o pão da sua terra, a carne do seu pasto e o vinho da sua lavra. Entretanto, a passagem de uma cultura agrária a uma cultura de serviços e de consumo aligeirou os procedimentos associados à organização da Festa. 

Actualmente as Irmandades optam por encomendar os diversos tipos de pão e de bolos na cooperativa local, simplificando assim os procedimentos de preparação de um Império e concentrando-os num período de tempo mais curto. A “Sexta-feira da Carne” – ritual de imolação dos bezerros com contornos bíblicos – também foi substituída pelo abate e desmancho das rezes no matadouro. Apesar disso, a carga de trabalho continua a ser assinalável. Sexta-feira os Irmãos distribuem “pensões” pelas casas de todos os necessitados, acamados ou de quantos ajudaram na preparação do Império – uma posta de carne, de tamanho directamente proporcional à ajuda ou necessidade de cada um – e no sábado há que acender o lume cedo, de modo a que as sopas possam estar prontas a tempo.

Domingo de manhã, a Coroa e o Ceptro são levados da igreja para o Teatro, espaço fundamental na versão mariense do culto ao Espírito Santo. É no Teatro – alpendre ou pequeno edifício anexo á igreja – que se instalam os principais dignitários da Festa: Trinchante, Mestre-sala e dois Briadores. Entretanto, a Nobre Imperatriz e o Nobre Imperador vão à Copeira buscar o primeiro “provimento”, para ser benzido pelo pároco. O “provimento”, levado muito devotamente à cabeça pela Imperatriz, é constituído por uma rosca. A seguir cabe aos dignitários a honrosa tarefa de distribuir o pão da mesa e as restantes roscas, que vão chegando em açafates enfeitados com flores. O Mestre-Sala dirige a operação, o Trinchante corta os pães e roscas em pedaços, os dois Briadores repartem as fatias pelos tabuleiros e entregam uma delas a cada pessoa. Sempre que no Teatro escasseia o pão da mesa ou as roscas, a Folia vai à dispensa pedir outro “provimento”. 

Por essa altura já vai decorrendo, na Copeira, o banquete oferecido pelos Imperadores após o regresso da Coroação. Na sala de repasto, os ajudantes dispõem sobre a mesa fumegantes terrinas de sopa (o caldo de cozer a carne, temperado apenas com hortelã e endro, despejado sobre grossas fatias de pão; são as sopas do Espírito Santo mais simples dos Açores e aquelas que estão mais próximas da receita original), grandes pratos com nacos de carne cozida e o vinho nos jarros. A mesa é posta dezenas de vezes ao longo do dia e o fim de cada refeição é acompanhado de calorosos vivas ao Divino Espírito Santo. O comer nunca finda e dá-se a toda a gente, sem distinção. Existe abundância, mas é uma abundância partilhada. As distribuições alimentares inserem-se num sistema de prestações e reciprocidades assentes no dar e no receber. O vocabulário religioso cristão (pão, vinho, carne), é transformado numa nova simbologia fortalecedora da solidariedade social, em que a divisão equitativa dos alimentos promove os valores da igualdade e da fraternidade. A Festa é a antecipação utópica do reino da abundância, na qual o alimento corporal acumula virtudes espirituais.

Enquanto isso, cá fora, uma multidão em traje domingueiro formiga, despreocupada e festiva, no espaço entre o Teatro e a Igreja, ouvindo os foliões e grupos de tocadores improvisados e aguardando a sua vez de entrar na Copeira. No culto ao Divino Espírito Santo a festa prevalece sobre a liturgia e, apesar do sentimento de intensa religiosidade, a dádiva e a alegria são mais importantes do que a penitência e o sacrifício. Há sempre nos Impérios, lado a lado com a devoção e o cerimonial religioso, uma forte pulsão lúdica e profana.

A noite de domingo avança e, saciada a fome do corpo e do espírito, toda a gente se sente agora cansada. Na Copeira a sala de jantar está finalmente vazia e na cozinha lava-se o chão e os panelões. Em frente do Teatro, a Folia vem anunciar que o Império findou. O Trinchante solta um estridente “viva o Esp’rito Santo!!”, erguendo no ar a Coroa, rebentam foguetes e retumba o tambor dos Foliões. A multidão aplaude. A Irmandade dirige-se para a igreja, onde se procede a uma breve cerimónia religiosa e, no meio de lágrimas reprimidas, a emoção atinge então o auge: todos sentem que está prestes a terminar o tempo sagrado em que estiveram sob a protecção do Espírito Santo. Na terça-feira haverá ainda o “Enterro dos Ossos” – um jantar que reúne pela última vez toda a Irmandade – e o Império termina com a entrega da Divina Coroa na igreja paroquial. Só nessa altura José e Arminda Bairos darão a promessa por cumprida, regressando ao calendário do tempo comum e aos seus afazeres diários.

 

Paulo Ramalho

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